Entre o Rito e o Acolhimento, duas importantes tecnologias sociais

Este artigo trata de duas tecnologias sociais importantes para trabalhos voltados à espiritualidade em comunidades. Por um lado, o Rito, bastante presente em diversas instituições religiosas, cada uma com suas dinâmicas ritualísticas próprias, e que orientam o comportamento de adeptos em torno do convívio diário e de celebrações. Por outro lado, o Acolhimento, que não é tão facilmente encontrando em instituições religiosas, por demandar sensibilidade e estrutura propícias para se estar disponível para o outro, para ouvir suas questões e contribuir com orientações possíveis. Rito e Acolhimento, portanto, são tecnologias sociais que muitas vezes se contrapõem, mas que, pelo que expomos a seguir, são igualmente necessários para a religiosidade comunitária, do que se faz útil integrá-los e equilibrá-los.

O motivo desta argumentação vem de experiências e observações recentes. Foi através do Espiritismo que eu comecei minha caminhada espiritualista, que hoje entendo como Autodesenvolvimento e Evolução Integrada. Por volta dos meus 21 anos, foi quando comecei a frequentar um Centro Espírita no bairro em que moro, a partir do convite de uma colega de faculdade, e motivado por uma série de desentendimentos e aflições que, na época, eu estava vivenciando.

Batizado na Igreja Católica, eu havia me afastado daí por vários anos após a Crisma, por razão de questões pessoais para as quais, na Igreja, eu não encontrava entendimento nem acolhimento. Na Casa Espírita, ao contrário, tanto por muitos de seus frequentadores, quanto pela vasta literatura oportunizada por grandes médiuns como Chico Xavier, encontrei muitas vezes acolhimento para a alma e conhecimento para o intelecto, auxiliando-me a compreender e lidar com as experiência de vida por que passava.

Posteriormente, à época da Pandemia da Covid-19, nos idos de 2018 a 2020, uma série de questões me fizeram voltar a frequentar a Igreja Católica. Já compreendia melhor a Cristo, que pouco a pouco pude conhecer na participação da Casa Espirita, mas fui tocado por graças recebidas de Nossa Senhora, e também me encontrava em um momento no qual não desejava estudar e analisar a espiritualidade, mas apenas vivenciá-la no dia a dia.  Não deixei de visitar a Casa Espírita, à qual ainda hoje busco quando para ouvir uma palestra, receber passes… mas encontrei na Igreja um envolvimento social maior com a comunidade local, apesar de que, voltei a vivenciar a estrutura Rirualística que, anos atrás, me havia afastado. Cabe ressaltar que realizei Primeira Comunhão e Crisma em colégios católicos nos quais estudei, mas agora voltava a frequentar a Igreja na comunidade em que moro, e na qual fui batizado. Isso me fez ver novas coisas.

Nesse período, eu passei a dar mais valor à Ritualística, no sentido de que são muitos os trabalhos e as pessoas envolvidas pela Igreja. O Rito, desse modo, auxilia a coordenar as diferenças e questões pessoais que temos em cada um de nós, a fim de se promover e sustentar o trabalho e a vivência em comunidade.

E recentemente, também um acontecimento me fez repensar o Acolhimento, de modo que passei a entender como igualmente necessários tanto o Rito quanto a capacidade de Acolher em instituições religiosas comunitárias. O antigo presidente daquela Casa Espírita que mencionei faleceu nos últimos anos. Homem trabalhador e bastante comunicativo, ele teve uma atuação marcante por mais de vinte anos na instituição, incentivando a muitos nos trabalhos e estudos realizados. Quando de seu falecimento, eu estava ausente da Casa Espírita já há alguns anos, e não soube de maiores repercussões. Já agora, em 2024, revi alguns frequentadores da casa, e tomei conhecimento de mudanças após o falecimento do presidente: dentre diversas questões, eu soube de ao menos duas pessoas que deixaram de frequentar a Casa após sua passagem, tendo sido substituído. Resultado, havia – e há – acolhimento na Casa Espírita, mas sob bases ainda muito pessoais de seus frequentadores. Quando do falecimento do antigo presidente, a ausência de maiores Ritualísticas, de uma maior estrutura e modo de proceder religioso-institucional, se mostrou como uma deficiência, na medida em que ocasionou o afastamento de frequentadores.

É assim que, hoje, entendo como necessária a combinação das tecnologias sociais do Rito e do Acolhimento nas instituições espiritualistas comunitárias.

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